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Turismo de Desordem: Visitando Lugares Onde Pessoas Desaparecem

25 de abril de 20266 min de leitura
Turismo de Desordem: Visitando Lugares Onde Pessoas Desaparecem

Em julho de 2014, a inglesa Stacey Arras, de 14 anos, saiu da varanda de um chalé no Yosemite National Park, na Califórnia, para tirar uma fotografia de um lago a duzentos metros do hotel. Carregava uma câmera, um casaco, nenhum mapa. Deveria voltar em quinze minutos. Em 2026, doze anos depois, nunca foi encontrada — nem o corpo, nem a câmera, nem um fio de cabelo. O caso entrou para a estatística do que o ex-investigador do Serviço Nacional de Parques David Paulides chama de Missing 411.

Yosemite não está sozinho. Há lugares no planeta — florestas, vilarejos, trechos de estrada — que colecionam desaparecimentos. E há um turismo crescente, meio doentio, meio mórbido, formado por pessoas que pagam para visitá-los. Eles se chamam turistas de desordem: viajantes que cruzam continentes para passar uma noite em hotéis abandonados, andar por trilhas marcadas com fitas vermelhas, ouvir histórias contadas por guarda-florestais cansados.

Os mapas onde as pessoas somem

O Triângulo da Sibéria, na bacia do rio Lena, registra desde 1993 mais de 200 desaparecimentos de caçadores e pescadores. O lago Anjikuni, no nordeste canadense, ficou famoso depois que, em novembro de 1930, o caçador Joe Labelle chegou a uma aldeia inuíte de trinta pessoas para encontrar fogueiras ainda acesas, panelas no fogo, cães mortos de fome amarrados às árvores — e nenhum vivo. A polícia montada canadense investigou; até hoje não há explicação aceita.

Nos Estados Unidos, o investigador David Paulides, em sua série de livros iniciada em 2012, mapeou clusters geográficos onde o número de desaparecimentos em parques nacionais foge de qualquer média estatística. Yosemite, Great Smoky Mountains, Mount Rainier, Crater Lake. Os padrões são desconfortáveis: vítimas frequentemente crianças pequenas ou idosos, quase sempre encontradas (quando encontradas) em lugares que já tinham sido vasculhados por equipes de busca, frequentemente sem sapatos, frequentemente em altitudes incompatíveis com seu estado físico.

Na Escócia, o Glen Coe tem reputação semelhante. Caminhantes experientes desaparecem em trilhas de baixa dificuldade. O caso de Margaret Hogg, em 1976, é icônico: o marido relatou que ela escorregou e caiu num lago. O corpo foi encontrado vinte e oito anos depois, em 2004, em condições que sugeriam estrangulamento. Mas há dezenas de outros casos sem qualquer culpado humano à vista.

O brasileiro mais conhecido nesse mapa sombrio é o do Morro do Vintém, em Niterói, onde em agosto de 1966 foram encontrados os corpos dos técnicos em eletrônica Manoel Pereira da Cruz e Miguel José Viana, vestindo ternos formais e máscaras de chumbo sobre os olhos. Não havia sinais de violência. Ao lado, um bilhete: "16:30 estar no local determinado. 18:30 ingerir cápsulas, após efeito proteger metais aguardar sinal mascara." O caso nunca foi resolvido. Hoje, agências de turismo paranormal cobram para subir o morro à noite.

A psicologia (e a economia) do turismo mórbido

O fenômeno foi batizado de dark tourism em 1996 pelos pesquisadores escoceses John Lennon e Malcolm Foley, da Universidade de Glasgow Caledonian. Eles definiram a categoria como "o ato de viajar para lugares historicamente associados à morte e à tragédia". Auschwitz recebe 2 milhões de visitantes por ano. Chernobyl, antes da invasão russa, recebia 100 mil. O quarto onde Elisa Lam sumiu, no Cecil Hotel em Los Angeles, em fevereiro de 2013, virou ponto de peregrinação após o documentário da Netflix.

O psicólogo Philip Stone, da Dark Tourism Institute, da Universidade de Central Lancashire, argumenta que esse turismo é uma forma moderna de lidar com a mortalidade numa cultura que aboliu o luto público. "O sujeito contemporâneo perdeu o velório, perdeu o cortejo, perdeu o cemitério como espaço social", escreveu Stone em 2018. "Vai a Aokigahara, ao Cecil, ao Vintém, em busca da experiência que sua sociedade lhe negou: o contato com a morte do outro."

Há também a hipótese mais incômoda — defendida pela antropóloga Maria Tumarkin, da Universidade de Melbourne — de que o turismo de desordem seja, no fundo, uma busca por contágio narrativo. O turista quer se aproximar da história sem entrar nela. Quer roçar o desaparecimento sem desaparecer. É o equivalente espiritual de filmar um acidente de carro do retrovisor.

Estudos do European Journal of Tourism Research de 2021 estimaram o setor em US$ 32 bilhões anuais, com crescimento de 10% ao ano. Em alguns lugares, como na cidade fantasma japonesa de Ōkuma, na zona de exclusão de Fukushima, o turismo já é a única atividade econômica restante. As ruínas se tornaram o produto.

Outros lugares-imã

O Triângulo das Bermudas perdeu prestígio acadêmico nas últimas décadas — explicado por correntes oceânicas, metano sub-aquático, erros de navegação. Mas o Mar do Diabo, ao sul de Tóquio, continua envolto em mistério. Entre 1952 e 1954, nove navios de carga japoneses sumiram ali. Em 1955, o Japão enviou o navio de pesquisa Kaiyo Maru No. 5, com 31 cientistas a bordo, para investigar. Ele também desapareceu, sem deixar destroços.

A Estrada Dyatlov, nos Urais, conduz ao local onde, em fevereiro de 1959, nove jovens excursionistas soviéticos foram encontrados mortos a quilômetros de sua barraca, em condições impossíveis: alguns sem língua, sem olhos, com fraturas internas sem ferimentos externos correspondentes, e níveis anômalos de radiação nas roupas. Em 2020, um estudo do Communications Earth and Environment propôs uma avalanche de placa como causa, mas pesquisadores independentes ainda apontam contradições. A trilha hoje é trilhada por agências russas que cobram cerca de US$ 1.500 por excursão.

No estado americano do Vermont, o chamado Triângulo de Bennington registrou cinco desaparecimentos entre 1945 e 1950, incluindo o de Paula Welden, estudante de 18 anos que sumiu numa trilha em pleno dia, e do menino Paul Jepson, de 8 anos, deixado um instante sozinho num caminhão. Nenhum corpo. Nenhuma explicação. As lendas locais falam de uma "pedra que engole gente".

E há a Floresta de Hoia-Baciu, na Romênia, onde árvores crescem retorcidas num padrão que biólogos romenos não conseguem explicar, e onde o fotógrafo militar Alexandru Sift, em 1968, registrou o que chamou de "objeto luminoso pousado entre os pinheiros". Hoia-Baciu virou destino turístico oficial: há trilhas demarcadas, hotéis temáticos, e mais de cinquenta agências oferecendo pernoites na clareira central, conhecida como Poiana Rotundă, onde nada cresce há mais de cem anos.

O que isso revela sobre nós

O turismo de desordem é um sintoma da nossa relação com o mistério: queremos consumi-lo sem ser consumidos por ele. Queremos a fronteira do incompreensível, mas com hotel reservado, café da manhã incluso e Wi-Fi de retorno. Como observou o ensaísta esloveno Slavoj Žižek, vivemos numa civilização que abole o real e depois compra ingressos para visitar suas ruínas.

Há, no entanto, algo de honesto nesse impulso. Talvez ir a Yosemite, a Aokigahara, ao Vintém, seja um modo desajeitado de admitir que não sabemos tudo — que o mundo, debaixo do GPS e das estatísticas oficiais, ainda guarda buracos por onde a realidade vaza. As pessoas continuam sumindo. Os parques continuam abrindo. E os ônibus turísticos continuam chegando, lotados de gente que finge ir pelo passeio.

Há uma frase atribuída a um ranger anônimo do Yosemite, citada no livro de Paulides: "O que mais me assusta não são os que somem. São os que voltam — e nunca contam o que viram."

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