DescubraIsso
geral

A Síndrome de Estocolmo: Amor Pelo Sequestrador

25 de abril de 20265 min de leitura
A Síndrome de Estocolmo: Amor Pelo Sequestrador

Eram 10h15 da manhã de 23 de agosto de 1973 quando o ex-presidiário Jan-Erik Olsson entrou no Kreditbanken, na praça Norrmalmstorg, no centro de Estocolmo, com uma submetralhadora escondida sob um casacão dobrado. Disparou para o teto, gritou em inglês: "The party has just begun". Em poucos minutos, fez quatro reféns: três funcionárias — Birgitta Lundblad, Elisabeth Oldgren e Kristin Enmark — e o caixa Sven Säfström. Exigiu três milhões de coroas suecas, um carro de fuga e a libertação de seu amigo Clark Olofsson da prisão.

Por seis dias, os reféns foram mantidos no cofre subterrâneo do banco. Quando a polícia finalmente lançou gás em 28 de agosto, ocorreu algo que ninguém esperava. Os reféns recusaram-se a sair primeiro. Disseram que tinham medo da polícia, não dos sequestradores. Kristin Enmark, ainda no cofre, telefonou ao primeiro-ministro Olof Palme e implorou para que a deixassem fugir junto com os criminosos. Mais tarde, declarou em entrevista: "Confio plenamente em Clark e no ladrão. Não confio na polícia". Estava nascendo, na imprensa, o nome de um fenômeno: Síndrome de Estocolmo.

O assalto que batizou uma síndrome

O termo foi cunhado pelo psiquiatra e criminólogo Nils Bejerot, contratado pela polícia sueca para assessorar as negociações. Bejerot, ouvindo Enmark pelo telefone, classificou o comportamento como Norrmalmstorgssyndromet — síndrome de Norrmalmstorg, depois reduzida a Síndrome de Estocolmo. A descrição entrou para os manuais de negociação policial e para a cultura popular antes de ter qualquer base científica robusta.

Enmark passou décadas refutando a interpretação. Em entrevista à BBC em 2016 e em livro publicado em 2020, defendeu que sua aliança com os sequestradores era estratégia racional de sobrevivência. "Eu fiz tudo o que podia fazer para que eles não me matassem", afirmou. "Você fica grato por ter sobrevivido. E o agradecimento foi para os caras que poderiam ter atirado. A polícia, para mim, era apenas pessoas armadas que chegavam para criar uma situação ainda pior".

Os criminosos cumpriram pena. Olsson, libertado em 1980, casou-se com uma mulher que lhe escreveu cartas durante o cárcere e tornou-se concessionário de carros usados. Manteve relação cordial com algumas das vítimas pelo resto da vida.

Patty Hearst e a transformação em terrorista

Seis meses após Estocolmo, em 4 de fevereiro de 1974, a herdeira Patricia Hearst, de 19 anos, neta do magnata da imprensa William Randolph Hearst, foi sequestrada de seu apartamento em Berkeley, na Califórnia, pelo grupo terrorista de extrema-esquerda Symbionese Liberation Army (SLA). Ficou trancada em um armário por 57 dias, vendada, espancada, estuprada — segundo seu próprio testemunho posterior — e bombardeada com propaganda revolucionária.

Em 15 de abril de 1974, câmeras de segurança do Hibernia Bank de São Francisco filmaram Patty Hearst, agora rebatizada de "Tania", empunhando uma metralhadora M1 carbine durante o assalto. Em uma fita de áudio enviada à imprensa, declarou guerra à classe que pertencia. Foi capturada pelo FBI em 18 de setembro de 1975 e, mesmo com a defesa do advogado F. Lee Bailey alegando lavagem cerebral, condenada a sete anos de prisão. O presidente Jimmy Carter comutou a pena em 1979. Bill Clinton a perdoou totalmente em 2001, em seu último dia de mandato.

O caso de Hearst foi central para que o psiquiatra Frank Ochberg, do FBI, formalizasse os critérios da síndrome em 1978: sentimentos positivos do refém em relação ao captor, sentimentos negativos em relação à autoridade, e reciprocidade — quando o sequestrador também desenvolve sentimentos pelo refém.

O que a psicologia descobriu — e duvidou

A neurociência moderna oferece pistas. Em situações de ameaça extrema, o sistema nervoso libera cortisol e noradrenalina em níveis que sustentam atenção máxima por períodos curtos. Quando a ameaça se prolonga por dias e o cérebro descobre que pequenas concessões do agressor — comida, uso do banheiro, conversa civilizada — funcionam como pausa do terror, esses gestos são processados com intensidade desproporcional. O psicólogo Dee Graham, da Universidade de Cincinnati, descreveu o processo em 1994 como vínculo de terror e demonstrou que ele se manifesta também em vítimas de violência doméstica, em membros de seitas e em vítimas de tráfico humano.

Apesar da popularidade do termo, a Síndrome de Estocolmo nunca entrou no DSM-5, manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria. Não há critérios formais. Um estudo de 2007 do FBI, analisando 4.700 casos de sequestro com reféns, encontrou indícios da síndrome em apenas 5%. A maioria dos especialistas, hoje, considera o fenômeno mais raro do que a cultura popular sugere — e questionam se não seria, em muitos casos, simplesmente o que Enmark sempre disse: estratégia adaptativa de sobrevivência sendo reinterpretada como patologia.

A psiquiatra Allan Wade, do Canadá, vai além. Argumenta que diagnosticar a vítima de "síndrome" desloca a responsabilidade do agressor e patologiza respostas inteligentes a violência. Em sua leitura, Kristin Enmark não tinha doença — tinha lucidez aterrorizante.

Casos contemporâneos e o debate em aberto

Em 24 de agosto de 2006, na Áustria, Natascha Kampusch escapou após oito anos e meio mantida em cativeiro num porão de Wolfgang Přiklopil, que a sequestrara aos 10 anos. Ao saber da fuga, Přiklopil se atirou na frente de um trem. Kampusch chorou ao ver o corpo no necrotério e pediu para acender uma vela em sua memória. Comprou, anos depois, a casa onde havia sido aprisionada, para impedir que virasse atração turística. Recusou-se sempre a ser rotulada com a Síndrome de Estocolmo. Em sua autobiografia 3.096 Dias (2010), escreveu: "Acho perfeitamente normal que se desenvolva algum tipo de relação com a pessoa com quem se passa tanto tempo".

O caso de Elizabeth Smart, sequestrada aos 14 anos em Salt Lake City em 2002 e mantida nove meses por Brian David Mitchell, oferece outro exemplo. Smart relatou ter sido estuprada diariamente, ameaçada de morte e da morte de sua família. Quando finalmente reconhecida na rua por policiais em março de 2003, hesitou em se identificar — comportamento que parte da imprensa rotulou de Síndrome de Estocolmo. Smart, hoje ativista, rejeita a categorização: "Eu sabia exatamente quem ele era. Eu o odiava. Eu queria que ele morresse. Mas eu queria viver mais".

O legado: o nome que sobreviveu à ciência

Cinquenta e dois anos depois do assalto a Norrmalmstorg, a Síndrome de Estocolmo permanece um termo culturalmente onipresente e cientificamente ambíguo. Aparece em séries de TV, em manuais policiais, em discussões sobre relações abusivas, em análises políticas sobre eleitores que apoiam líderes que os prejudicam. Ao mesmo tempo, é cada vez mais contestada por sobreviventes que insistem que o que parece amor pelo agressor é, com frequência, lucidez extrema disfarçada de patologia.

O caso original talvez tenha sido sempre lido errado. Kristin Enmark morreu em 2024, aos 70 anos, sustentando até o fim que nunca amou Olsson nem Olofsson — apenas reconhecera, no meio de seis dias trancada num cofre, que a polícia parecia mais disposta a aceitar baixas civis do que os criminosos. Talvez essa seja a parte mais incômoda do legado de Estocolmo: a possibilidade de que o que diagnosticamos como doença das vítimas seja, na verdade, denúncia involuntária dos sistemas que prometem salvá-las.

Continue explorando