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Stonehenge: 5.000 Anos de Segredos Sem Respostas

25 de abril de 20265 min de leitura
Stonehenge: 5.000 Anos de Segredos Sem Respostas

Ao amanhecer de 21 de junho de 2024, mais de oito mil pessoas se aglomeravam diante de um círculo de pedras na planície de Salisbury, no condado inglês de Wiltshire. O sol nascia exatamente entre dois megálitos verticais, alinhando-se com a chamada Heel Stone — uma pedra solitária plantada a cerca de 80 metros do círculo principal. Naquele instante preciso, um silêncio engoliu a multidão. O alinhamento se repete a cada solstício de verão há, no mínimo, cinco mil anos. Quem o calculou, e por quê, é a pergunta que arqueólogos vêm tentando responder desde o século XVII.

Stonehenge, nome derivado do inglês antigo stān hencg ("pedras suspensas"), é composto por aproximadamente 83 megálitos remanescentes dispostos em círculos concêntricos e ferraduras. As pedras maiores, chamadas sarsens, pesam até 30 toneladas e medem 7 metros de altura. As menores, conhecidas como bluestones por sua tonalidade azulada quando molhadas, têm entre 2 e 5 toneladas. O monumento integra a lista do Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1986.

Cinco Milênios em Camadas

A construção de Stonehenge não foi um evento, mas um processo arrastado que cobriu pelo menos 1.500 anos. A datação por radiocarbono, realizada por equipes lideradas pelo arqueólogo Mike Parker Pearson, da University College London, dividiu o sítio em cinco fases distintas. A primeira, por volta de 3000 a.C., consistiu em um anel circular de terra e fossas — algumas contendo restos humanos cremados. Cerca de 64 indivíduos foram enterrados ali nos primeiros cinco séculos da história do local, fazendo de Stonehenge o maior cemitério neolítico já descoberto na Grã-Bretanha.

Por volta de 2500 a.C., os primeiros megálitos foram erguidos. As bluestones vieram primeiro. Em 2015, a equipe de Parker Pearson identificou as pedreiras exatas de origem: Carn Goedog e Craig Rhos-y-felin, ambas nas Colinas Preseli, no País de Gales, a 240 quilômetros de distância. Como povos sem roda, sem ferro e sem animais de carga moveram blocos de várias toneladas por essa distância continua sendo objeto de teorias. A hipótese mais aceita combina trenós de madeira, troncos rolantes e, no trecho final, balsas pelo Rio Avon.

Os sarsens, por sua vez, vieram de muito mais perto — embora isso só tenha sido confirmado em 2020. Análise geoquímica conduzida pela Universidade de Brighton, publicada na revista Science Advances, comparou amostras dos sarsens com 20 áreas potenciais. O resultado: 50 das 52 pedras analisadas vieram de West Woods, em Marlborough, a 25 quilômetros do círculo. Mesmo assim, mover blocos de 30 toneladas por terreno acidentado exigiu, segundo cálculos da arqueóloga experimental Julian Richards, equipes de até 1.000 pessoas trabalhando simultaneamente.

A última grande modificação ocorreu por volta de 1600 a.C. Depois disso, Stonehenge foi gradualmente abandonado. Quando os romanos chegaram à Britânia em 43 d.C., já era ruína misteriosa.

Para Que Servia?

Templo? Observatório astronômico? Cemitério ritual? Centro de cura? As três primeiras teorias têm forte respaldo arqueológico. A quarta foi popularizada por Geoffrey Wainwright e Timothy Darvill, que em 2008 escavaram fragmentos de bluestones quebradas como se peregrinos doentes lascassem pedaços para usar como amuletos curativos. Encontraram, dentro do círculo, esqueletos com sinais de doenças graves vindos de regiões distantes da Europa.

O alinhamento solar é inegável. No solstício de verão, o nascer do sol ocorre exatamente sobre a Heel Stone, visto do centro do monumento. No solstício de inverno, o oposto: o pôr do sol se alinha pelo eixo principal na direção contrária. Para o astrônomo Gerald Hawkins, autor do polêmico livro Stonehenge Decoded (1965), o sítio funcionava como um computador astronômico capaz de prever eclipses lunares. Suas conclusões foram contestadas — Hawkins usou estatísticas frouxas — mas a precisão dos alinhamentos é fato confirmado por satélite.

Parker Pearson defende uma hipótese diferente, baseada em duas décadas de escavação no povoado vizinho de Durrington Walls, descoberto em 2005 a apenas 3 quilômetros de Stonehenge. Lá viviam, segundo ele, os construtores e os celebrantes — possivelmente até 4.000 pessoas reunidas sazonalmente para festejos massivos. Ossos de porco datados radiocarbonicamente mostram que os animais eram abatidos sempre em pleno inverno. Para o pesquisador, Stonehenge era o domínio dos mortos (pedra eterna), enquanto Durrington era o dos vivos (madeira efêmera). Ambos ligados pelo Rio Avon.

O Que a Tecnologia Moderna Revelou

Em 2014, o projeto Stonehenge Hidden Landscapes, liderado por Vincent Gaffney, da Universidade de Birmingham, varreu 12 quilômetros quadrados ao redor do monumento com radares de penetração no solo, magnetômetros e lasers aéreos (LIDAR). Os resultados redesenharam tudo o que se sabia. Foram descobertas 17 estruturas previamente desconhecidas, incluindo um anel de cerca de 90 fossas gigantes — cada uma com 10 metros de diâmetro e 5 de profundidade — formando um círculo de 2 quilômetros em torno de Durrington Walls. Datadas em 4.500 anos, essas fossas constituem a maior estrutura pré-histórica já encontrada na Grã-Bretanha.

Em 2022, isótopos extraídos de dentes humanos enterrados no sítio mostraram que muitos dos enterrados em Stonehenge passaram parte da infância na atual região do País de Gales — exatamente onde foram extraídas as bluestones. Há, portanto, uma migração humana e geológica simultânea. Um povo se moveu, e suas pedras com ele.

O genoma de habitantes da Britânia neolítica, sequenciado em 2019 pela equipe de David Reich, em Harvard, revelou outro choque: os construtores originais de Stonehenge foram quase totalmente substituídos, geneticamente, pelos chamados Bell Beaker — povos vindos do continente europeu por volta de 2400 a.C. Em quatro séculos, mais de 90% do DNA da população insular foi trocado. Os herdeiros do monumento, portanto, não eram descendentes dos que o ergueram.

Em 2021, escavações para o controverso projeto de túnel rodoviário sob Stonehenge revelaram um machado de 4.000 anos e centenas de artefatos enterrados em camadas até então intactas. Ambientalistas e arqueólogos, entre eles a Sociedade Real de Arqueologia, conseguiram suspender as obras na Justiça britânica em 2024.

O Fascínio Que Não Cessa

Stonehenge recebe mais de 1,3 milhão de visitantes por ano, segundo o English Heritage, órgão que administra o sítio. Druidas modernos celebram rituais nos solstícios. Cientistas continuam debatendo sua função. Engenheiros calculam a mecânica das pedras. E ainda assim, o monumento se recusa a entregar a resposta final.

Talvez nunca saibamos o que aqueles construtores neolíticos falavam, em que deuses acreditavam, que palavras pronunciaram diante das pedras erguidas. O que se sabe é que, sem escrita, sem metal, sem roda, eles deixaram um relógio de pedra que ainda funciona — um relógio que marca o sol há cinco mil anos.

O que será que olhamos quando olhamos para Stonehenge: o engenho de uma civilização perdida, ou o reflexo de nossa própria necessidade de encontrar significado nas ruínas?

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