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A Psicologia da Multidão: Por Que Perdemos a Razão em Grupo?

25 de abril de 20265 min de leitura
A Psicologia da Multidão: Por Que Perdemos a Razão em Grupo?

Eram 14h54 de 15 de abril de 1989, e o juiz da partida entre Liverpool e Nottingham Forest, no estádio de Hillsborough, em Sheffield, apitou o início do jogo. Seis minutos depois, ele apitou de novo — desta vez para interromper. Atrás da grade do setor Leppings Lane, milhares de torcedores do Liverpool eram esmagados uns contra os outros. A polícia de South Yorkshire havia mandado abrir o portão C para aliviar a multidão do lado de fora. Os 2.000 que entraram correndo derramaram-se sobre os que já estavam comprimidos contra o alambrado. Naquela tarde, 97 pessoas morreram asfixiadas em pé, sem cair. A mais nova tinha 10 anos.

Cento e vinte e nove anos antes daquela tarde, em Paris, o médico francês Gustave Le Bon publicava Psychologie des Foules (1895), o livro que inauguraria o estudo científico das multidões. Le Bon escreveu que o indivíduo numa multidão "desce vários degraus na escala da civilização". Sua tese era exagerada e em parte preconceituosa, mas a pergunta central permanece intacta mais de um século depois: por que pessoas razoáveis, individualmente, fazem em grupo o que jamais fariam sozinhas?

Le Bon e a invenção de uma disciplina

Le Bon escrevia em pânico com a Comuna de Paris de 1871 e com o que chamava de "era das multidões". Sua teoria propunha três mecanismos: o anonimato, que dilui a responsabilidade individual; o contágio mental, em que emoções se espalham como vírus; e a sugestionabilidade, que torna o membro da multidão receptivo a ideias que rejeitaria sozinho. Le Bon postulava ainda uma "alma coletiva" que substituiria a personalidade.

O livro influenciou diretamente Mussolini, que afirmou tê-lo lido várias vezes, e também Hitler, conforme registrado por Hermann Rauschning. Foi também influência fundamental sobre Edward Bernays, sobrinho de Sigmund Freud e fundador da indústria moderna de relações públicas. Bernays usaria as ideias de Le Bon, em 1929, para convencer mulheres americanas a fumarem em público — chamando os cigarros de "tochas da liberdade" numa parada do dia de Páscoa em Nova York.

A psicologia social moderna abandonou a ideia romântica da "alma coletiva", mas confirmou seu núcleo empírico. Em 1969, o pesquisador Philip Zimbardo demonstrou em laboratório que estudantes encapuzados aplicavam choques elétricos em colegas com o dobro da intensidade dos estudantes identificados — fenômeno que chamou de desindividuação.

Linchamentos: a multidão como tribunal

Entre 1882 e 1968, o Tuskegee Institute documentou 4.743 linchamentos nos Estados Unidos. Setenta e três por cento das vítimas eram negras. As fotografias, vendidas como cartões-postais nas décadas de 1900 e 1910, mostram multidões sorridentes — homens, mulheres e crianças — posando ao lado de corpos pendurados. Em 7 de dezembro de 1899, em Maysville, Kentucky, a multidão que enforcou Richard Coleman incluía centenas de pessoas; pedaços do corpo carbonizado foram vendidos como suvenir.

O sociólogo Roger Brown, em Social Psychology (1965), analisou esses eventos como exemplos perfeitos do que chamou de polarização de grupo: indivíduos com inclinações pré-existentes, ao se reunirem, radicalizam-se mutuamente até posições mais extremas do que qualquer um deles defenderia isoladamente. A multidão não cria a opinião; intensifica-a.

Estádios, shows e a física da morte coletiva

Em Hillsborough, em 1989, ninguém quis matar ninguém. Foi a geometria da multidão que matou. O engenheiro britânico G. Keith Still, fundador da consultoria Crowd Risk Analysis, demonstra que multidões com densidade superior a 5 pessoas por metro quadrado começam a se comportar como fluido. Ondas de pressão atravessam o aglomerado em velocidades de até 5 m/s, esmagando quem está nos extremos contra estruturas fixas. As vítimas morrem em pé, por asfixia compressiva: o tórax não consegue se expandir o suficiente para respirar.

O fenômeno se repete com brutal regularidade. Em 30 de outubro de 2022, no bairro de Itaewon, em Seul, 159 pessoas morreram esmagadas em um beco de 3,2 metros de largura durante festividades de Halloween. Em 24 de setembro de 2015, durante o ritual da apedrejamento do diabo em Mina, perto de Meca, pelo menos 2.411 peregrinos morreram — segundo levantamento da Associated Press. Em 1º de dezembro de 2022, no estádio de Kanjuruhan, na Indonésia, gás lacrimogêneo lançado pela polícia nas arquibancadas matou 135 torcedores que tentavam escapar por portões trancados.

O denominador comum não é o caos. É a engenharia hostil: portões insuficientes, planejamento ruim, autoridades despreparadas. As multidões não enlouquecem; são as estruturas ao redor delas que falham.

Pânico moral e contágio social

Em 1518, em Estrasburgo, uma mulher chamada Frau Troffea começou a dançar na rua. Em uma semana, 34 pessoas dançavam com ela. Em um mês, 400. Crônicas da época, estudadas pela historiadora John Waller, registram que algumas dançaram até cair mortas, vítimas de exaustão, infarto e AVC. A peste dançante de 1518 é hoje considerada um dos casos mais documentados de histeria de massa, possivelmente disparada pela combinação de fome, sífilis e crenças religiosas locais sobre Santo Vito.

O fenômeno tem nome técnico: doença psicogênica de massa. Em 1962, em Tanganica (atual Tanzânia), um surto de riso incontrolável atingiu mais de mil estudantes em 14 escolas, durando 18 meses. Não havia patógeno. Em 2011, em Le Roy, Nova York, 18 estudantes de uma escola pública desenvolveram tiques e espasmos de tipo Tourette ao mesmo tempo. A neurologista Laszlo Mechtler diagnosticou "transtorno de conversão em massa" — sintomas físicos reais provocados por estresse psicológico transmitido socialmente.

O sociólogo Stanley Cohen, em Folk Devils and Moral Panics (1972), descreveu o ciclo: a mídia identifica um "vilão folclórico", autoridades reagem com pânico desproporcional, a sociedade adota medidas que muitas vezes pioram o problema original. O caso clássico que estudou foi o conflito entre os Mods e Rockers nas praias inglesas em 1964 — escaramuças menores transformadas pela imprensa britânica em apocalipse social.

O legado: nem fera, nem santo

A revisão moderna mais influente sobre Le Bon veio de Stephen Reicher, da Universidade de St Andrews, com a chamada Teoria da Identidade Social das Multidões. Ao estudar os tumultos de Brixton de 1981 em Londres, Reicher demonstrou que multidões não destroem aleatoriamente: atacam delegacias, lojas de credores, escritórios de bancos — alvos simbólicos. Há lógica, não contágio cego.

Em emergências, multidões frequentemente cooperam de forma extraordinária. Pesquisas conduzidas por John Drury, da Universidade de Sussex, com sobreviventes dos atentados de 7 de julho de 2005 em Londres, mostraram que estranhos no metrô se ajudaram mutuamente, dividiram água, carregaram feridos. A "identidade compartilhada" criada pela ameaça produziu solidariedade, não pânico.

A multidão não é a fera de Le Bon nem o anjo coletivo dos otimistas. É uma estrutura emergente que amplifica tanto o melhor quanto o pior do que já existia em cada um. Hillsborough matou porque autoridades trataram torcedores como fera. Itaewon matou porque o município ignorou a engenharia de fluxo. As pessoas, quase sempre, fazem o que podem com o espaço que lhes é deixado. O que perdemos em grupo não é exatamente a razão. É a opção de recuar.

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