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A Matéria Escura: 85% do Universo Que Não Conseguimos Ver

25 de abril de 20264 min de leitura
A Matéria Escura: 85% do Universo Que Não Conseguimos Ver

Em uma noite fria de 1933, no observatório do Monte Wilson, na Califórnia, o astrônomo suíço Fritz Zwicky percebeu algo profundamente errado. Ele estava medindo a velocidade das galáxias dentro do Aglomerado de Coma, um grupo gravitacionalmente ligado a 320 milhões de anos-luz da Terra. Pelas leis de Newton, as galáxias se moviam tão rápido que o aglomerado deveria estar se desintegrando há éons. Mas estava lá, coeso, antigo, estável. Zwicky concluiu que algo invisível, com massa muito maior que toda a matéria luminosa visível, mantinha o conjunto unido. Ele chamou aquela substância fantasmagórica de dunkle Materie: matéria escura.

Por décadas, a comunidade científica ignorou Zwicky, conhecido pela personalidade difícil. Foi necessário o trabalho meticuloso de outra astrônoma, quase 40 anos depois, para que o universo invisível ganhasse o lugar central que ocupa hoje na cosmologia. Estamos falando de algo que compõe cerca de 85% de toda a matéria do cosmos, e que ainda não fazemos a menor ideia do que seja.

Vera Rubin e a Revolução das Galáxias Girando "Errado"

Nos anos 1970, a astrônoma americana Vera Rubin e seu colega Kent Ford estudavam a rotação de galáxias espirais usando um espectrógrafo extremamente sensível. A previsão era simples: estrelas próximas ao centro deveriam orbitar mais rápido, e as nas bordas, mais devagar, exatamente como os planetas em nosso Sistema Solar. Foi o que Kepler ensinou no século XVII.

Mas as galáxias se recusavam a obedecer. Rubin descobriu que estrelas distantes do centro da galáxia de Andrômeda se moviam com a mesma velocidade que as do interior. As curvas de rotação não caíam, ficavam planas. Era como se houvesse um halo invisível e gigantesco de massa envolvendo cada galáxia, segurando suas estrelas como uma mão estendida no vácuo.

O trabalho de Rubin, publicado entre 1978 e 1980, foi tão claro e reproduzível em centenas de galáxias que tornou-se impossível ignorar. A matéria escura saiu da especulação para o centro do paradigma cosmológico. Vera Rubin morreu em 2016 sem nunca receber o Prêmio Nobel, em uma das omissões mais comentadas da história recente da ciência.

A Física do Invisível

Sabemos da matéria escura apenas pelos seus efeitos gravitacionais. Ela não emite, absorve ou reflete luz em qualquer comprimento de onda. Não interage (ou quase não interage) com a matéria comum através das forças eletromagnética ou nuclear forte. Atravessa estrelas, planetas e seu próprio corpo a todo instante, sem deixar rastro.

Existe uma evidência espetacular dela em ação: o Aglomerado da Bala, observado em 2006 pelo telescópio espacial Chandra. Trata-se da colisão de dois aglomerados de galáxias. O gás quente, visível em raios-X, ficou retido no centro, enquanto as halos de matéria escura, detectadas por lentes gravitacionais, atravessaram-se mutuamente sem interagir, como fantasmas. Essa separação física entre matéria visível e invisível é considerada a prova mais direta da existência da matéria escura como entidade real.

O candidato favorito por décadas foi a partícula chamada WIMP (Weakly Interacting Massive Particle): partículas hipotéticas, com massa entre 10 e 1000 vezes a do próton, interagindo apenas pela gravidade e pela força nuclear fraca. Experimentos profundamente enterrados em minas, como o XENONnT, na Itália, e o LUX-ZEPLIN, em Dakota do Sul, contêm toneladas de xenônio líquido ultrapurificado, esperando que uma única dessas partículas colida com um átomo. Após décadas, nenhum sinal claro emergiu.

De WIMPs a Áxions e Buracos Negros Primordiais

O fracasso silencioso dos detectores de WIMP empurrou a comunidade para alternativas. Uma das mais elegantes é o áxion, partícula proposta originalmente em 1977 por Roberto Peccei e Helen Quinn para resolver um problema completamente diferente da física de partículas. Áxions seriam ultraleves, bilhões de vezes mais leves que um elétron, e poderiam, em princípio, ser detectados convertendo-se em fótons na presença de campos magnéticos intensos. O experimento ADMX, na Universidade de Washington, é o principal caçador.

Outra hipótese ressuscitada recentemente envolve buracos negros primordiais, formados nos primeiros instantes após o Big Bang. Eles não seriam restos de estrelas mortas, mas verdadeiras flutuações da densidade do universo recém-nascido. Observações de microlenteamento gravitacional realizadas pela colaboração OGLE e pela missão MACHO descartaram que objetos compactos compreendam a maior parte da matéria escura, mas certas faixas de massa permanecem em aberto.

Há ainda quem questione a própria existência da matéria escura. A MOND (Modified Newtonian Dynamics), proposta por Mordehai Milgrom em 1983, sugere que a gravidade simplesmente se comporta de maneira diferente em escalas muito grandes. Embora a MOND explique algumas curvas de rotação galácticas elegantemente, ela falha em descrever fenômenos como o Aglomerado da Bala e a estrutura em larga escala do universo, o que mantém a maioria dos cosmólogos no campo da matéria escura.

O Que o Universo Continua Escondendo

O Telescópio Espacial Euclid, lançado pela Agência Espacial Europeia em julho de 2023, está construindo um mapa tridimensional de mais de um terço do céu, medindo como a luz é distorcida pela matéria escura ao longo de bilhões de anos-luz. Suas primeiras imagens, divulgadas em 2024, mostraram detalhes deslumbrantes da teia cósmica: filamentos invisíveis ao olho que conectam galáxias como neurônios em um cérebro cósmico.

Apesar de todo esse esforço, a matéria escura permanece como o maior mistério em aberto da física. Não sabemos sua massa, seu spin, suas interações exatas, ou se é uma única partícula ou uma família inteira. Algumas teorias sugerem que pode haver um setor escuro: forças e partículas paralelas formando uma química inteira invisível para nós.

O céu noturno, quando olhamos por um telescópio, mostra apenas 5% da composição total do universo. O resto, matéria escura e energia escura, é o palco invisível sobre o qual estrelas e galáxias dançam. Estamos como peixes que apenas começaram a perceber a existência da água.

Se a matéria escura é uma forma totalmente nova de matéria, o que isso diz sobre nossa Tabela Periódica e o quão pequena é a fatia da realidade que nossos sentidos podem alcançar?

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