As Cartas Estranhas de Jack O Estripador
Era 27 de setembro de 1888, e Thomas Bulling, jornalista da Central News Agency em Londres, abriu um envelope endereçado a "The Boss". Dentro, uma folha escrita em tinta vermelha. "Dear Boss", começava. "Eu continuo ouvindo que a polícia me pegou, mas eles não vão me pôr para baixo ainda. Eu ri quando dizem ser tão espertos e falam estar na pista certa. Aquela piada sobre o Avental de Couro me deu sequências de risadas." A carta era assinada com um pseudônimo até então inédito — um nome que entraria para a história do crime: Jack the Ripper.
Naquele outono de 1888, o bairro de Whitechapel, no East End londrino, vivia uma onda de assassinatos que a polícia classificaria como obra de um único autor. Cinco mulheres — as chamadas canonical five — foram brutalmente assassinadas entre agosto e novembro: Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowes e Mary Jane Kelly. Todas tinham gargantas cortadas e mutilações abdominais. Nenhuma das mais de 200 cartas atribuídas ao assassino jamais foi confirmada como autêntica. Mas três delas mudaram para sempre a história da criminologia, do jornalismo e do folclore moderno.
O Pesadelo de Whitechapel
O East End londrino dos anos 1880 era um labirinto fétido de cortiços, becos sem iluminação e fábricas. Cerca de 80 mil pessoas viviam apertadas em Whitechapel, em condições que o jornalista Jack London descreveria, anos depois, como "o abismo". Mulheres pobres, frequentemente alcoólatras, recorriam à prostituição por uma cama na noite — alguns pence garantiam um lugar em um doss-house, dormitório coletivo.
O primeiro assassinato canônico ocorreu em 31 de agosto de 1888. Mary Ann "Polly" Nichols, 43 anos, foi encontrada em Buck's Row, com a garganta cortada de orelha a orelha e o ventre rasgado. Oito dias depois, em 8 de setembro, Annie Chapman, 47, apareceu morta em Hanbury Street com mutilações ainda mais graves: o útero havia sido removido com precisão. O legista Dr. George Bagster Phillips declarou ao inquérito que o autor possuía "considerável conhecimento anatômico", possivelmente um cirurgião ou açougueiro.
A imprensa popular vivia seu boom. Tabloides como o Star e o Pall Mall Gazette tiravam tiragens recordes. O caso Whitechapel virou obsessão nacional. A Polícia Metropolitana, sob comando do Comissário Sir Charles Warren, investigou centenas de suspeitos: judeus imigrantes, marinheiros, médicos, açougueiros kosher. Nada se sustentava. Foi nesse vácuo que apareceram as cartas.
A "Dear Boss" e o Nome Que Marcou Época
A carta recebida por Bulling em 27 de setembro foi originalmente datada de 25 de setembro. O remetente não havia matado ninguém desde 8 de setembro — eram já 19 dias de silêncio sangrento. "Estou virando os meus olhos para as prostitutas e não vou parar de rasgá-las até ser preso", escreveu o autor. "Adoro o meu trabalho e quero começar de novo." Prometia cortar as orelhas da próxima vítima e mandá-las à polícia, "só por brincadeira".
A Central News Agency segurou a carta por dois dias antes de entregá-la à Scotland Yard, em 29 de setembro. Achavam que era farsa. Na madrugada de 30 de setembro, ocorreram os assassinatos chamados de double event: Elizabeth Stride foi morta em Berner Street, possivelmente interrompida pelo aparecimento de uma carroça; cerca de 45 minutos depois e a 1,2 quilômetro de distância, Catherine Eddowes foi encontrada em Mitre Square, mutilada — e com a parte inferior da orelha direita cortada. Exatamente como prometido.
A coincidência aterrorizou Londres. A Scotland Yard, em 1º de outubro, autorizou a publicação de fac-símiles da carta nos jornais, na esperança de que alguém reconhecesse a caligrafia. Foi um erro. Em vez de identificar o autor, transformou o nome "Jack, o Estripador" em fenômeno cultural. Centenas de cartas falsas começaram a chegar — algumas escritas por crianças, outras por ociosos, outras por sociopatas comuns.
No dia seguinte, em 1º de outubro, a Central News Agency recebeu um cartão-postal com a mesma caligrafia da Dear Boss. Apelidado de Saucy Jacky, fazia referência direta ao duplo assassinato de horas antes — "trabalho número um chiou um pouco, não pude terminar direito, sem tempo para pegar orelhas para a polícia". A polícia inicialmente o considerou autêntico, dado o conhecimento dos detalhes. Mas a notícia já havia circulado nos vespertinos. Qualquer leitor atento poderia ter escrito o cartão.
"From Hell" e Meio Rim Humano
Em 16 de outubro de 1888, George Lusk, presidente do Comitê de Vigilância de Whitechapel, recebeu uma pequena caixa de papelão. Dentro, um pedaço de carne preservada em álcool. E uma carta. A caligrafia era completamente diferente das anteriores. A ortografia, péssima. "From hell", começava — "Do inferno". "Mr Lusk, Sor, eu mando para você metade do Kidne que tirei de uma mulher e preservei pra você outra metade fritei e comi foi muito bom". O autor assinava com a frase: "Catch me when you can" — pegue-me se for capaz.
O fragmento foi examinado pelo Dr. Thomas Openshaw, do Hospital de Londres. Ele identificou tratar-se de meio rim humano esquerdo, conservado em vinho — e não em formol como seria comum em laboratórios da época. Catherine Eddowes havia sido morta 16 dias antes; um de seus rins esquerdos havia sido removido pelo assassino. A possibilidade de que aquela fosse a peça anatômica genuína paralisou Londres. Médicos brincalhões poderiam ter mandado um pedaço retirado de cadáver de hospital, argumentou a polícia. Mas o detalhe macabro — o autor afirmar tê-lo fritado e comido — colocava a carta From Hell em outra categoria.
Diferente das anteriores, esta carta nunca virou material da imprensa imediatamente, e seu original desapareceu da Scotland Yard décadas depois. Restam apenas fotografias. Para muitos especialistas modernos, incluindo o ex-detetive Trevor Marriott da Polícia Metropolitana e autor de Jack the Ripper: The 21st Century Investigation, From Hell é a única carta que pode ter saído da mão do verdadeiro assassino.
Quem Escreveu, Afinal?
O Inspetor-chefe John Littlechild, em carta interna do Departamento Especial datada de 1913, sugeriu que a Dear Boss e o postal Saucy Jacky foram escritos pelo próprio Tom Bulling, da Central News Agency, ou por seu chefe John Moore. A motivação seria clara: vender jornais. Em 1931, o jornalista Frederick Best, do Star, teria confessado em conversa que escrevera as cartas "para manter o negócio aceso". A confissão jamais foi documentada formalmente.
Análises grafológicas modernas, incluindo o estudo conduzido em 2018 pela linguista forense Andrea Nini, da Universidade de Manchester, compararam a Dear Boss e a Saucy Jacky usando análise estilométrica computacional. Conclusão: muito provavelmente foram escritas pela mesma pessoa, e essa pessoa tinha estilo jornalístico — vocabulário, ritmo e expressões idiomáticas típicas da imprensa popular vitoriana. A From Hell, ao contrário, parece pertencer a alguém com escolaridade muito menor, padrão linguístico irregular e profundamente diferente.
Em 2014, o empresário Russell Edwards alegou ter resolvido o caso usando DNA mitocondrial extraído de um xale supostamente encontrado ao lado do corpo de Catherine Eddowes. Apontou para Aaron Kosminski, barbeiro polonês internado em hospício em 1891 e já listado pela polícia da época como suspeito. O estudo, publicado em 2019 no Journal of Forensic Sciences, foi criticado por pares: a cadeia de custódia do xale é frágil e o DNA mitocondrial só consegue indicar linhagem materna ampla.
Outros suspeitos perenes incluem Montague John Druitt, advogado encontrado afogado no Tâmisa em dezembro de 1888, mencionado pelo investigador-chefe Sir Melville Macnaghten; Walter Sickert, pintor impressionista acusado em livro polêmico da escritora Patricia Cornwell; e Francis Tumblety, charlatão americano com ódio declarado de mulheres.
O Mito Que Não Envelhece
Jack, o Estripador, foi o primeiro celebrity killer da era da mídia de massa. Sua sombra perdura porque inaugura o gênero do serial killer moderno: matanças sem motivo aparente, vítimas marginalizadas, terror coletivo, e — sobretudo — uma narrativa construída em parceria entre criminoso e imprensa. Seja o autor da Dear Boss um jornalista cínico, seja o autor da From Hell um canibal real, ambos perceberam o poder devastador de uma carta bem escrita.
Mais de 100 livros, dezenas de filmes (de From Hell, com Johnny Depp, em 2001, à série Whitechapel, da BBC), passeios turísticos noturnos por Spitalfields e museus dedicados — tudo prova que Jack venceu, no final, a partida com a Scotland Yard. Tornou-se imortal exatamente porque nunca foi nomeado.
Em alguma gaveta de arquivos vitorianos, ou perdido para sempre em meio a destroços do Blitz que devastou Londres em 1940, talvez exista o nome verdadeiro do homem que rasgou cinco mulheres em Whitechapel. Talvez já esteja escrito, e ninguém o tenha lido. Você acha que valeria a pena descobrir, ou o monstro precisa permanecer sem rosto para continuar nos fascinando?
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