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O Caso Elisa Lam: Câmeras, Mistério e Morte

25 de abril de 20266 min de leitura
O Caso Elisa Lam: Câmeras, Mistério e Morte

Na manhã de 19 de fevereiro de 2013, Santiago Lopez subiu pela escada de incêndio do Hotel Cecil, em Downtown Los Angeles, para verificar uma reclamação que vinha se repetindo havia dias: a água que saía das torneiras tinha gosto estranho, jorrava com pressão fraca e, segundo um casal britânico hospedado no quarto 412, vinha escura. O zelador abriu a tampa de um dos quatro reservatórios instalados no telhado do prédio. Lá dentro, boiando de costas, estava o corpo nu de uma jovem de 21 anos. O cabelo escuro espalhava-se pela superfície. Ao lado, no chão de metal do tanque, suas roupas dobradas.

Elisa Lam, estudante canadense da Universidade da Colúmbia Britânica, havia desaparecido em 31 de janeiro. Estava sozinha em Los Angeles, em uma viagem de mochila pela Costa Oeste americana. O Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD) levou onze dias para encontrá-la — e o local em que estava transformou um caso de pessoa desaparecida em um dos mistérios mais discutidos da era da internet.

O Hotel da Morte

O Cecil Hotel foi inaugurado em 1924 na Main Street, número 640, com 700 quartos pensados para executivos da era do jazz. A Grande Depressão arruinou o projeto. Em poucas décadas, o prédio tornou-se sinônimo do submundo de Skid Row, bairro de moradores em situação de rua que se estende por dezenas de quarteirões da região central de Los Angeles. Pelos corredores do Cecil passaram nomes pesados: Richard Ramirez, o serial killer conhecido como Night Stalker, viveu no quarto 1419 em 1985 enquanto matava ao menos 14 pessoas. O austríaco Jack Unterweger, que assassinou três prostitutas em LA em 1991, escolheu o hotel como base por causa de sua história sinistra.

Pelo menos 16 mortes violentas — entre suicídios, homicídios e quedas suspeitas das janelas — foram registradas no edifício antes de Elisa. Em 1962, Pauline Otton se jogou do nono andar e matou George Gianinni, pedestre que passava na calçada. Em 1944, Dorothy Jean Purcell, de 19 anos, jogou seu bebê recém-nascido pela janela. Quando Elisa fez o check-in, em 26 de janeiro de 2013, o estabelecimento havia sido rebatizado, em parte, como Stay on Main, um hostel barato voltado a mochileiros. Diárias custavam pouco mais de 65 dólares.

A jovem dividia inicialmente um quarto com outras viajantes. Depois de reclamações sobre comportamento estranho — Elisa, segundo as colegas, deixava bilhetes no chão pedindo que saíssem do recinto —, foi transferida para um quarto solo. Era bipolar, fato confirmado pela família e pelo blog que mantinha no Tumblr, Nouvelle/Nouveau, onde escrevia sobre depressão, leituras e a viagem que fazia.

O Vídeo do Elevador

Em 13 de fevereiro, sem pistas, o LAPD divulgou um trecho de 2 minutos e 39 segundos da câmera de segurança de um dos elevadores do hotel. O vídeo foi gravado por volta das 0h50 do dia 1º de fevereiro — possivelmente, as últimas imagens de Elisa Lam com vida. Em poucas horas, viralizou. Hoje acumula mais de 30 milhões de visualizações no YouTube.

As cenas são desconcertantes. Elisa entra na cabine vestindo uma blusa vermelha e short. Aperta vários botões — 14, 7, 9, 4 — e fica esperando. As portas não fecham. Ela se debruça para fora, olha para os dois lados do corredor como se fugisse de alguém. Volta a entrar. Encolhe-se contra a parede. Sai novamente. Faz movimentos amplos com as mãos, gestos que lembram alguém conversando ou rezando. Em determinado momento, parece torcer os dedos diante do próprio corpo, como se contasse algo invisível. Por fim, sai do elevador e desaparece para a esquerda. Logo depois, as portas finalmente se fecham, sozinhas, e o elevador volta a funcionar normalmente.

Internautas ao redor do mundo dissecaram cada frame. Surgiram acusações de que o vídeo havia sido editado, com cortes nos timestamps. A polícia jamais explicou oficialmente por que o relógio do canto do quadro foi mascarado. Investigadores independentes afirmam que os movimentos de Elisa coincidem com sintomas de um episódio psicótico em transtorno bipolar, especialmente quando a medicação é interrompida — algo que a autópsia depois confirmaria.

O exame toxicológico, conduzido pelo médico-legista Jason Tovar, encontrou níveis subterapêuticos dos remédios prescritos: lamotrigina, quetiapina, venlafaxina e bupropiona. Em outras palavras, Elisa não estava tomando suas doses corretas.

Como Ela Chegou Lá em Cima?

O laudo oficial classificou a morte como afogamento acidental, com transtorno bipolar listado como fator significativo. Mas a logística do caso intrigou peritos por anos. Os reservatórios ficavam no telhado, acessíveis apenas por uma escada de incêndio externa. A porta do telhado era trancada e equipada com alarme — alarme que, segundo o gerente Amy Price, não disparou naquela noite. Câmeras nas saídas de emergência tampouco registraram movimento.

Cada tanque tinha 2,4 metros de altura, com tampa pesada de metal que precisa ser empurrada para o lado. Investigadores tiveram dificuldade de acesso. Como uma jovem de 1,57 metro abriu a tampa, entrou no reservatório, fechou-a por trás de si — porque, sim, a tampa foi encontrada fechada por dois bombeiros, embora outros relatos afirmem o contrário — tirou a roupa e dobrou-a antes de morrer? A confusão sobre o estado da tampa virou um dos pontos centrais das teorias conspiratórias.

O detetive Wallace Tennelle, do LAPD, sustentou que Elisa entrou nua porque já estava desorientada. Pesquisadores como John Lordan, podcaster especializado em casos arquivados, defenderam essa hipótese ao notar que pessoas em surto psicótico relatam sensações de calor extremo e frequentemente despem-se em locais inusitados. O fenômeno é conhecido como paradoxical undressing e aparece em literatura forense desde os anos 1970.

Mesmo assim, ficaram pontas soltas. O hóspede do quarto 412, Michael Baugh, contou ao Los Angeles Times que ele e a esposa escovaram os dentes com aquela água por dias. "O gosto era doce, esquisito", lembrou. Hóspedes só foram alertados após a descoberta do corpo. A cadeia hoteleira foi processada pela família Lam por negligência; o caso foi encerrado sem indenização, em 2015.

Por Que o Caso Não Morre

Em 2021, a Netflix lançou a série documental Cena do Crime: Desaparecimento no Hotel Cecil, dirigida por Joe Berlinger. A produção tornou-se uma das mais assistidas do streaming naquele ano e reabriu a discussão. Detetives amadores na internet chegaram a acusar um músico mexicano chamado Pablo Vergara — conhecido como Morbid — de ter assassinado Elisa, simplesmente porque ele havia se hospedado no Cecil um ano antes. Vergara entrou em depressão e tentou suicídio. Estava na Cidade do México na noite da morte, com passaporte carimbado.

O caso virou catalisador para discussões sobre saúde mental, sobre o linchamento digital de inocentes e sobre a fronteira entre fascínio mórbido e empatia. A mãe de Elisa, em depoimento à imprensa canadense, pediu que internautas "lembrassem que ela era uma filha, não um mistério".

O Cecil fechou as portas em 2017 para reformas e segue, em 2026, parcialmente em obras. Ainda assim, turistas posam para fotos na calçada da Main Street. Há quem diga que ouve barulhos vindos do telhado.

Se o vídeo do elevador é um retrato cru da mente em colapso ou se a câmera capturou algo que ninguém ainda soube nomear, talvez nunca se saiba. O que resta é a imagem de uma jovem de blusa vermelha apertando botões de um elevador que se recusava a obedecer. Quem você acha que ela estava vendo no corredor vazio?

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