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Canibalismo Moderno: Quando a Civilização Colapsa

25 de abril de 20266 min de leitura
Canibalismo Moderno: Quando a Civilização Colapsa

No dia 22 de dezembro de 1972, depois de setenta e dois dias presos a 3.600 metros de altitude na cordilheira dos Andes, dezesseis sobreviventes do voo 571 da Força Aérea Uruguaia foram resgatados. Carregavam, debaixo das jaquetas, pedaços congelados dos amigos mortos. O time de rúgbi do Old Christians Club, embarcado para um amistoso em Santiago, havia se transformado, durante setenta e dois dias, em algo que a linguagem ainda hesitava em nomear. Roberto Canessa, então estudante de medicina de 19 anos, descreveu mais tarde: "A primeira vez foi a pior. Depois disso, a fome venceu a vergonha."

O caso do voo 571 não é um relato de selvageria. É o oposto: é a evidência mais clara que temos de que o canibalismo, longe de ser uma marca de barbárie distante, é uma decisão racional acessível a qualquer ser humano sob certas condições — condições que, ao contrário do que gostamos de pensar, não são tão raras assim.

Os Andes, a Donner Party, e a antropologia do desespero

O caso clássico do Novo Mundo é a Donner Party, grupo de 87 pioneiros americanos que, em outubro de 1846, ficou preso pelo inverno na Sierra Nevada, na Califórnia. Quando os resgatadores chegaram, em fevereiro de 1847, encontraram 48 sobreviventes — e cabanas com restos humanos cuidadosamente esquartejados, ossos com marcas de faca paralelas às marcas de açougueiro profissional. As cartas de Tamsen Donner, sepultadas com seus filhos, descreveram com clareza médica os procedimentos. Comeram primeiro os mortos da família alheia. Depois os mortos da própria família. Em alguns casos, segundo o estudo arqueológico de Donald Grayson publicado no Journal of Anthropological Research em 1990, há indícios de que assassinatos foram cometidos para garantir a próxima refeição.

O voo 571, a Donner Party, e o naufrágio do baleeiro Essex em 1820 — o evento que inspirou Herman Melville a escrever Moby Dick — formam o que a antropologia chama de canibalismo de sobrevivência. Distingue-se de outras formas: do canibalismo ritual documentado entre os Wari' do Brasil pela antropóloga Beth Conklin nos anos 1980; do canibalismo medicinal europeu, em que múmias egípcias eram pulverizadas em pó e vendidas em farmácias de Londres até o século XVIII; e do canibalismo patológico, dos serial killers.

Para o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos (1955), o canibalismo nunca foi sobre comida. Era sobre incorporação simbólica. Os Wari' comiam os parentes mortos para que continuassem habitando seus corpos. Os Achuar do Equador, segundo registros do antropólogo Philippe Descola nos anos 1980, comiam os inimigos para roubar-lhes a alma. A nutrição era um efeito colateral.

O canibalismo de sobrevivência, no entanto, opera em outra lógica. É puramente metabólica. O corpo humano adulto contém cerca de 81.500 calorias — suficientes para alimentar uma pessoa por dezesseis dias. Os Andes, a Donner Party, o Essex: todos provam que, sob fome severa o suficiente, o tabu cede em prazos previsíveis. Roberto Canessa relatou que os primeiros sobreviventes a comer, no quarto dia depois da decisão coletiva, foram os mais jovens. Os mais velhos demoraram quase uma semana.

A ciência: por que o tabu existe, e por que cede

A repulsa pela carne humana é praticamente universal entre as culturas — e isso intriga biólogos evolutivos. Em 1976, o pesquisador Daniel Carleton Gajdusek ganhou o Prêmio Nobel de Medicina ao demonstrar que o canibalismo ritual entre os Fore, da Papua Nova Guiné, transmitia uma doença neurodegenerativa fatal: o kuru. As mulheres e crianças, que comiam os cérebros dos mortos durante rituais funerários, contraíam a doença. Quando a prática foi proibida pelo governo australiano em 1960, a epidemia desapareceu em uma geração.

O kuru é causado por príons — proteínas malformadas que destroem o sistema nervoso. A descoberta de Gajdusek pavimentou o caminho para a compreensão da "doença da vaca louca" e da variante humana de Creutzfeldt-Jakob. Comer humanos é, biologicamente, um péssimo negócio: o risco de contrair a doença do próprio canibalizado é altíssimo, especialmente se houver consumo de tecido nervoso. A evolução possivelmente selecionou a aversão.

Mas o tabu cultural é outra história. O psicólogo Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia, em estudos sobre nojo publicados nos anos 1990, demonstrou que a repulsa por comer humanos pertence à mesma categoria neural que a repulsa por incesto: é o que ele chamou de nojo moral. Tem componente cultural forte, mas é estabilizada por arquitetura cerebral. A ínsula anterior — região do cérebro que processa nojo — dispara sinais quase idênticos diante da ideia de comer carne humana e diante da ideia de transar com um irmão.

A boa notícia, se assim podemos chamar, é que esses circuitos podem ser silenciados temporariamente. Estudos do neurocientista Joshua Greene, de Harvard, mostraram que dilemas morais extremos — como os enfrentados pelos sobreviventes dos Andes — desativam parte do córtex pré-frontal ventromedial, a área responsável por gerar emoções de aversão. Em fome severa, o cérebro literalmente se reconfigura para tolerar o intolerável.

Outros casos modernos — mais perto do que se imagina

Durante o cerco de Leningrado, entre 1941 e 1944, estima-se que 2.000 pessoas tenham sido presas pela polícia soviética por canibalismo, segundo arquivos do NKVD abertos nos anos 1990 pelo historiador Anna Reid. Em fevereiro de 1942, no auge da fome — quando a ração era de 125 gramas de pão por dia —, comeu-se de tudo: cães, gatos, ratos, papel-pintura, e, conforme registrado em mais de 800 dossiês, vizinhos, parentes, e crianças mortas em hospitais. A polícia distinguia oficialmente entre trupoyedstvo (comer cadáveres) e lyudoyedstvo (matar para comer). Os primeiros eram presos. Os segundos, fuzilados.

Em 1991, o caso do alemão Armin Meiwes, em Rotenburg, chocou o mundo: ele postou um anúncio na internet procurando alguém disposto a ser comido. Bernd Brandes, engenheiro de Berlim, respondeu, viajou até a casa de Meiwes, e foi assassinado e parcialmente consumido com seu consentimento expresso, gravado em vídeo. O caso forçou a Alemanha a redefinir a legislação sobre eutanásia e canibalismo — porque, tecnicamente, não havia lei alemã proibindo o ato. Meiwes foi condenado por homicídio simples em 2004, depois revisado para assassinato em 2006.

Em 2002, na Coreia do Norte, durante a fome conhecida como Marcha Árdua, dissidentes refugiados na Coreia do Sul relataram à Anistia Internacional a venda de "carne especial" em mercados de fronteira. O número de execuções por canibalismo entre 1996 e 2003 é estimado em centenas, segundo o relatório de David Hawk para a U.S. Committee for Human Rights in North Korea, publicado em 2012.

Mais recentemente, em 2022, o relator especial da ONU para a Síria, Paulo Pinheiro, registrou casos isolados de canibalismo de sobrevivência na cidade sitiada de Madaya. Não é coisa do passado. É o que acontece quando uma cidade fica sem comida por nove meses.

O que isso revela sobre nós

Gostamos de pensar que o canibalismo é um marcador de "outros" — outros povos, outros tempos, outros tipos humanos. Os casos modernos provam o contrário: ele é o marcador da fronteira em que qualquer um de nós, sob fome severa, isolamento prolongado e ausência de alternativa, pode atravessar. A civilização não nos protege do canibalismo. Apenas nos protege da fome que o desencadeia. Quando essa proteção falha — em montanhas, em cercos, em campos de guerra — o tabu cai em poucos dias.

Roberto Canessa, hoje cardiologista pediátrico em Montevidéu, escreveu em suas memórias de 2016: "Comer Marcelo, comer Diego, foi o ato mais íntimo da minha vida. Mais íntimo que qualquer beijo, qualquer parto que eu tenha assistido. Eu carrego eles. Não como metáfora. Como matéria."

Talvez o que torna o canibalismo tão perturbador não seja sua estranheza, mas sua proximidade. Toda vez que um sobrevivente come um sobrevivente, ele faz, em situação extrema, o que toda comunhão religiosa simboliza, o que toda família simboliza ao redor da mesa, o que todo amor sussurra: te incorporo, te continuo, te trago para dentro. A civilização gosta de fingir que esse desejo é figurado. Os Andes provaram que ele pode, quando o mundo desaba, voltar a ser literal.

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